O preço de um ideal e a hipocrisia


É natural no contagiante calor da juventude aflorar a defesa de “ideais” de liberdade, justiça e solidariedade. Mas com o passar do tempo a maioria das pessoas se vêem amordaçadas por causas cada vez mais individuais e seletistas.

O dinheiro, num mundo que focaliza excepcionalmente os shoppings centers e suas ofertas, torna-se o objetivo de vida de muita gente. As causas sociais são defendidas de maneira a ostentar apenas o status e afagar (ou enganar?) a consciência que grita no vazio de seu próprio espaço.

Para “vender a alma” só basta o lance e muitos são arremessados até a vala onde multidões caminham para um abismo lamacento, com a intocável consciência de tarefa cumprida que só a ignorância traz. Determinado grau de satisfação vem acompanhado de altas doses de hipocrisia, tão encantadoras e convincentes que alguns chegam a se comover de sua boa conduta perante a “sociedade” numa auto-reflexão.

São raras as pessoas que no meio do caminho não param de escutar o clamor humanitário que esperneia diante de tanta injustiça. A sede de igualdade dos que ainda possuem alguma água e sentem a necessidade de distribuí-la para quem não tem, está cada vez mais escassa.

Passeio Socrático (Frei Beto)

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.

"Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais.

Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira.

Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós”.

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social.

Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.

Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um vinho guardado na adega, uma jóia?
Assim como um objeto se associa ao seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.

Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em Cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.

"Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."

E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo.
"Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados.
Então explico:
Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo.
Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas.

E, assediado por vendedores como vocês, respondia:
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

Novo modelo

Os leitores mais assíduos do AsforaBlog já devem ter notado que nos ultimos tempos tenho publicado com grande freqüência artigos de outras pessoas, com isso pretendo compartilhar e difundir cada vez mais pensamentos que, na visão do autor do blog, são interessantes.

Meus artigos de opinião não deixarão de serem escritos, apenas incremento ao Blog um modelo cada vez mais dinâmico e participativo.

Castelo Branco e Mendes Morais

Em destemido discurso na Câmara, nos tempos de chumbo de 1964, o deputado paraibano Raymundo Asfora chamou o marechal Castelo Branco de “corcunda do nosso drama”. O deputado governista Mendes de Morais, resolveu insultá-lo, no microfone de apartes. Asfora devolveu em versos:- Por uma fatalidade/Dessas que o fado compôs/Merda se escreve com um M/E Mendes Morais com dois!

Borborema, tropeiros e burramas

Esta é uma terra de tropeiros, burramas e bem-te-vis. Tem açudes, muitas ladeiras, universidades, ciência, cultura e arte (em baixa). Tem saberes, mas é ruim de memória.

Uma cena marcante aconteceria em plena Rua 07 de Setembro, em Campina Grande, no dia 08 de dezembro de 1975. Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, no palco, em alto e bom som pedia desculpas publicamente a Raymundo Asfora por “não ter gravado a letra completa” da canção Tropeiros da Borborema, tal como ele a havia concebido e dado a Rosil Cavalcanti para musicar.

Ao mesmo tempo, o Rei se comprometia a, “futuramente, numa próxima gravação, resolver o problema”. Qual o problema, então, que motivaria o Rei do Baião a se retratar publicamente em Campina Grande? Respondo: ele havia modificado a letra original de “Tropeiros” por achar que a tornaria mais compreensível para a população.

“Estala, relho malvado / Recordar hoje é meu tema (meu lema) / Quero é rever os antigos / Tropeiros da Borborema…” com estes versos Luiz Gonzaga abria aquela que viria a se tornar o segundo hino de Campina Grande. Na verdade, originalmente, Asfora escreveu: “Estala, relho malvado / embora a burrama gema […]” e mais adiante “[…] em busca da terra [‘beleza da terra’, na versão gonzagueana] que tanto se expande / e se hoje se chama de Campina Grande / foi grande por eles que foram os primeiros / oh, tropas de burros / oh, velhos tropeiros”.

Em dezembro de 1988, em sua última Missa do Vaqueiro, em Serrita-Exu (PE), em participação especial com o Quinteto Violado, Luiz Gonzaga pede um mi menor ao seu sanfoneiro auxiliar e diz: “Eu vou cantar agora a música mais bonita que já cantei em toda minha vida […]” e inicia, com a voz já cansada, os versos memoráveis, desta vez, conforme o poema original de Raymundo Asfora. É a única gravação do Rei do Baião cantando “Tropeiros” com a letra original.

Em tempos de homenagens a Campina Grande, Lei Municipal confirmando a música como uma espécie de segundo hino, votação popular escolhendo a canção como aquela que melhor representa a cidade, nada melhor, segundo meu juízo, que fazer jus à obra original de um dos mais nobres defensores desta terra, o poeta Raymundo Yasbek Asfora. Seria uma forma de mostrar respeito pela memória daqueles que declararam, poeticamente, seu amor por Campina e fizeram da sua vida um ato de amor de fato. Ao mesmo tempo, seria uma declaração de compromisso com a verdade histórica.

É bom lembrar que a música foi registrada apenas em nome de Rosil Cavalcanti [editada pela BMG], quando todos sabem e até propagam que a mesma é resultado de parceria com Raymundo Asfora. Isso também está registrado na mesma gravação de Luiz Gonzaga, em praça pública, na comemoração de um dos aniversários da Rádio Borborema.

Em boa hora as rádios e TVs, poderiam tomar uma atitude crítica e utilizar a versão correta da música, uma vez que ela existe e é conhecida. Por outro lado, o poder público campinense [por intermédio de sua Procuradoria Geral ou outro mecanismo] deveria providenciar documentação e efetivar o registro junto à editora, para que a história não seja traiçoeira e negue ao poeta Raymundo Asfora o direito moral, de ter o seu nome oficialmente reconhecido e registrado como um dos autores de uma das mais belas canções de toda história da humanidade.

Nem Asfora nem seus herdeiros ganhariam nada, materialmente, com tal procedimento. Os herdeiros não querem auferir lucros com a canção. Mas, sem dúvidas, seria um grande feito em reconhecimento a um dos mais destacados brasileiros que lutaram por esta terra de tropeiros e burramas (que ainda teimam em circular em meio aos carrões importados). Seria também um grande ato em respeito à sua memória e em respeito à inteligência dos milhares de mortais, modernos tropeiros, que teimam em fazer de Campina Grande seu lugar de pouso, descanso e mesmo a “sua” terra. Viva a cultura respeitada!

CHE

Há personagens com uma tal estatura histórica que, independente dos adjetivos e de todos os advérbios, ainda assim não conseguimos retratá-los em nada que possamos dizer ou escrever. O que falar de Marx, que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel?

Hegel dizia que existem personagens cuja biografia não ultrapassa o plano da vida privada, enquanto outros são os personagens cósmicos, estes cujas biografias coincidem com o olho do furacão da história.

O Che é um destes personagens cósmicos. Basta dizer que, independente de qualquer campanha publicitária, sua imagem transformou-se na mais vista do século XX e assim continua neste novo século. Nenhum esportista, artista ou músico, mesmo com bilionárias promoções pelo mundo globalizado afora, se mantém num lugar parecido. O Che veio para ficar.

Novas gerações, nascidas depois da morte do Che, continuam identificando-se com sua imagem, com seu sentimento de rebeldia, com sua coragem, com sua luta implacável contra toda injustiça.

Não vou gastar palavras inúteis para falar do Che. Basta reproduzir algumas das suas frases, que selecionei para o livro “Sem perder a ternura”.

“A única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência...”

“Nós, que, pelo império das circunstâncias, dirigimos a revolução, não somos donos da verdade, menos ainda de toda a sapiência do mundo. Temos que aprender todos os dias. O dia que deixarmos de aprender, que acreditarmos saber tudo, ou que tivermos perdido nossa capacidade de contato ou de intercâmbio com o povo e com a juventude, será o dia em que teremos deixado de ser revolucionários e, então, o melhor que vocês poderiam fazer seria jogar-nos fora...”

“Deixa-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor.”“Nosso sacrifício é consciente. É a cota que temos de pagar pela liberdade que construímos.”

“Muitos dirão que sou aventureiro, e sou mesmo, só que de um tipo diferente, destes que entregam a própria pele para demonstrar suas verdades.”

“Sobretudo, sejam capazes de sentir, no mais profundo de vocês, qualquer injustiça contra qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo.” (Carta de despedida aos filhos)“É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais.”

“Que importam os perigos ou os sacrifícios de um homem ou de um povo, quando está em jogo o destino da humanidade.”

“É um dos momentos em que é preciso tomar grandes decisões: este tipo de luta nos dá a oportunidade de nos convertermos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também nos permite graduar como homens.”

“Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais completos; somos mais completos porque somos mais livres.”

Emir Sader

"Férias"

Não sei como explicar de modo satisfatório, mas o fato é que esse tempo em que passei sem escrever serviu como umas férias para mim... ou para os leitores!?! Vocês decidem!

De qualquer forma, dentro de uma semana voltarei a postar normalmente.

Navegar é Preciso



Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.


Fernando Pessoa

Aos amigos de Campina II

Confesso que não esperava tamanha repercussão do primeiro artigo que denominei “Aos amigos de Campina”. Nele falei do orgulho que tenho em ser neto de um grande homem, cearense de nascimento e paraibano por adoção, que contribuiu com seus talentos para ver sua terra cada vez mais desenvolvida e menos injustiçada. Também citei em meu artigo publicado neste blog um pouco da minha natureza política e da atração que o debate de idéias exerce sobre mim. Tudo isso atingiu minha vida com um redemoinho de especulações político-partidárias.

Foram vários os convites de lideranças municipais e até estaduais para que me filiasse aos seus respectivos partidos, visando sempre à disputa eleitoral que se aproxima.

É preciso deixar claro que quando afirmei “está pronto para contribuir com a nossa cidade”, não me limitava apenas à esfera política, que sem dúvidas tem uma expressão e importância singular, porém incluía também a colaboração que posso dar enquanto cidadão que trabalha, estuda e quer o bem de sua região.

Sinto-me preparado para almejar um futuro melhor em sociedade, mas não necessariamente isso tem ligação com a classe política. É preciso deixar bem claro, que se vier a participar da vida pública não será com um passo precipitado que irei iniciar a caminhada. O mundo está sempre nos ensinando e é preciso ter cautela para não colocar a carroça na frente dos bois.

Sempre fiel ao que acredito pretendo seguir a orientação do que me fala a consciência, inclusive pela voz dos que me querem bem.

20 anos sem Carlos Drummond de Andrade

Hoje não escrevo

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...
Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

Agradecimento


O número de acessos ao AsforaBlog tem crescido muito nos últimos meses. Milhares de leitores dentro de um único bimestre! A responsabilidade é crescente.
Só tenho a agradecer pela atenção dispensada ao que escrevo e ao carinho com que as pessoas comentam comigo cada palavra aqui publicada.

Era uma casa... dos estudantes!

Estive esta semana visitando a antiga Casa do Estudante Félix Araújo, e lamentei profundamente o estado em que, outrora salvadora casa, se encontrava clamando por salvação.

Por falta de uma boa administração, como de maior interesse por parte dos últimos dirigentes do Centro Estudantal Campinense, todo aquele patrimônio obtido graças aos esforços de lideranças estudantis que fizeram história em nossa cidade, agora passará as mãos de outra instituição.
Assim sendo, se somará a mais uma derrota do alunado, que por falta de uma entidade legitimada e comprometida com a causa estudantil, saboreia mais um amargo gosto de perda.

É verdade que a Casa do Estudante perdeu um pouco sua finalidade maior – abrigar os estudantes de cidades vizinhas que não possuíam residência fixa em Campina – pois toda cidade em nosso Estado hoje em dia possui o ensino médio completo. Assim sendo, não obriga o aluno a sair de sua região como antigamente.

Porém, é indispensável lembrar que as necessidades dos estudantes não se limitam ao abrigo, e que um patrimônio de tamanha envergadura não poderia escorregar das mãos de uma classe que tanto se empenhou em assegurá-la.

Aos atuais dirigentes do CEC, diante de sua incapacidade de mobilização, aqui vai uma dica em forma de letra musical, por sinal bem conhecida: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte!”.

Talvez não

O poeta é um ser especial, sempre sensível ao fato no qual põe o olho. Enxerga de uma maneira singular as circunstâncias, dando-lhe uma intensidade emocional mais apurada e mística.

É assim, inconformado com as convenções, que o poeta enxerga o mundo. Não o acompanha a frieza dos céticos, mas incorpora a essência das coisas. É um ser livre pelo modo de encarar a vida e ao mesmo tempo preso pela sintonia que o mantém em freqüência com tudo.

Sente a alma do que existe: quando alegre, torna-se alegria; quando triste, é a tristeza! Personifica-se ao sentimento mostrando desprendimento com o que considera trivial.

Como diria tio Ricardo, “o poeta, da mesma forma que pode chegar ao paraíso descrevendo uma simples flor, pode alcançar o purgatório relatando uma situação que para muitos seria indiferente”. Por sinal, tio, nunca vi descrição tão poética!

Assim sendo, continuo aqui,
Meio poeta; e talvez não.
Sem saber como mentir:
Tudo pra mim é ilusão!

Amizade

Da amizade que surgiu
E pela verdade pura,
Criaram-se amarguras.
Aguerrida; subsistiu!

Superando batalhas
Na peleja da vida,
Cicatrizou-se feridas,
Mesmo como navalhas.

E assim, sempre unidos,
Mostramos destemidos,
Uma força sem precedentes.

Prezando pela união:
Agindo como irmãos;
Caminhamos sorridentes!



Aos amigos que me acompanham durante a caminhada da vida, de forma inestimável.

Aos amigos de Campina!


Desde pequeno, como todo paraibano e campinense, respiro política. No colégio, nas praças, na universidade, no trabalho, aonde quer que cheguemos essa discussão faz parte das conversas rotineiras. É nossa tradição! Soma-se a isso minha origem de raízes políticas, e pronto, esse tipo de assunto exerce uma influência magnética sobre mim. É inerente ao meu ser defender idéias, contestá-las e sempre procurar aprimorá-las.

Talvez por carregar (com orgulho) o nome do meu avô paterno, que tem história e trabalho prestado, tenho recebido inúmeros convites de agremiações partidárias para concorrer numa possível eleição proporcional no próximo ano. Essas procuras me envaidecem e reforçam a crença que já possuo na vitoriosa passagem por essa terra do nosso inesquecível Raymundo Asfora. Esses convites só revelam a ânsia de alguns em resgatar a política feita com dignidade, compromisso e respeito à vontade do povo; marca maior de uns tempos remotos.

Muitos perguntam se tenho pretensão em disputar cargos eletivos, no que sempre respondo: “na hora certa, me sentindo preparado, não vejo porque negaria!”. Seria motivo de orgulho representar uma cidade comprometida com seu futuro, altaneira desde sua origem e politizada de berço.

Quem representava os bons costumes políticos, a lealdade ao povo e a audácia em falar mais alto no Congresso Nacional por nossa Paraíba, sabiamente profetizou: “a morte está enganada, eu vou viver depois dela!”. Por isso sempre terei como meta honrar os passos de quem nunca mudou de direção e que até os seus últimos dias “só libertava dos lábios, as palavras prisioneiras no coração”.

Campina, seu futuro é uma vaidade de cada filho teu, e Grande é a vontade de te ver ainda maior. Estou pronto para contribuir no que puder com esse crescimento!

Admitir o erro é o começo da solução

A dignidade parece ser muitas vezes objeto de auto-afirmação entre a maioria das pessoas. É difícil encontrar alguém que se veja desonesto, injusto ou incapaz. Quando um indivíduo tenta proclamar alguma atitude indigna, sempre vem acompanhado no discurso um viés de justiça com as próprias mãos. Temos dificuldade em admitir nossos erros!

A dificuldade encontrada para a maioria dos problemas no nosso dia-a-dia se origina dessa falsa opinião que tendemos a ter de nós mesmos. Quando não reconhecemos um problema nos furtamos a buscar uma solução, solidificando assim o erro e o atraso que obtemos graças à falta de autoconhecimento e excesso de egoísmo.

O assaltante de banco se diz vitima das mesmas circunstâncias que levam um homem pobre a roubar uma galinha. Existe semelhança no caso que justifique tal afirmativa? Uns diriam que não outros que sim, dependem muito de cada caso. Até em ocasião de um latrocínio o autor dos disparos diz ter matado em legitima defesa. Observamos que todos querem ser vitimas das circunstâncias, ninguém admite cometer coisas indignas!

Por vezes admitimos uma áurea sobrenatural a um amigo que passa num concurso para justificar a nossa falta de empenho que nos rendeu apenas o ônus da inscrição. É preciso reconhecer nossos erros e enfrentá-los na peregrinação em busca de uma solução.

Não admitir a existência de nossas falhas é o mesmo que negar nossos acertos, só que negando nossos acertos caminhamos para o melhor caminho sem saber, e ignorando nossos erros chegaremos em pouco tempo a beira de um penhasco, na mais otimista das previsões.

SAUDADE (Augusto dos Anjos)

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.

PARABÉNS!



Algumas coisas que sempre me lembram você...

Amor Liberdade Inteligência Naturalidade Esperança

Parabéns mãe!
Te amo
.

Não é como antigamente, ta pior...

Criticar algumas músicas por seu teor pouco instrutivo na letra tem sido uma constante no meio “intelectual” em nossos dias, de fato as apologias que são feitas em muitas delas em nada contribuem para uma sociedade melhor. A partir dessa constatação, o que observamos em relação às criticas que são feitas? Quais seus efeitos mais concretos? É difícil admitirmos, mas isso tem entrado numa orelha e saído na outra de muita gente sem que nada se altere.

Um dia desses, como dificilmente faço atualmente, prestei atenção as letras das músicas de um show de forró, e nisso observei que quando não se fazia “culto” a bebida, tudo era direcionado para a prostituição (cabaré, putaria, etc). Que fique bem claro que não tenho nada contra esse gênero musical, muito pelo contrário, quem me conhece sabe da admiração que tenho por músicas de cantores como Flávio José, Luiz Gonzaga, Santana, entre tantos outros. Mas o que é de se lamentar é ver como no nordeste as letras estão se tornando cada vez mais apelativas, fenômeno que já vem ocorrendo no Brasil nas suas mais diversas regiões.

Nossa cultura nordestina passou bons tempos exportando músicas de qualidade, com grande valorização de nossos costumes e tradição, e de uns tempos pra cá, com raras exceções, tem recorrido ao vulgar, entrando na contramão de sucessos anteriores que se ergueram sobre os pilares do bom senso e da extrema qualidade na composição.

Ao que parece nos dias atuais a falta de compromisso com o futuro de nossa gente tem reinado entre muitos compositores, que por ignorância transparecem não reconhecer a influência que a música exerce sobre as pessoas. Não venham levantar suas bandeiras os “defensores dessa modernidade” justificando que o povo moldou os artistas dessa forma, e que esse é único caminho para se trilhar o sucesso. Conversa fiada!Ou então jamais teríamos como explicar o entusiasmo da multidão ao se deparar com canções antigas e que ainda são os standartes maiores de nossa região. O que alguns precisam é se enxergar com os olhos da responsabilidade que possuem.

As autoridades políticas também bem que poderiam deixar de se acovardar nesse tema e reconhecer a importância cultural que a música possui, procurando criar mecanismos mais contundentes no combate ao que denominamos “lixo musical”, seja através de campanhas ou até de limitações de horários como ocorre com os filmes pornográficos exibidos na TV aberta, pois o que algumas dessas letras expõem não deixa de ser pouco recomendadas para quem está em processo de construção de sua personalidade e formação intelectual.

Finalizando, faço das palavras do velho Luiz Gonzaga as minhas... “Nem que eu fique aqui dez anos, eu não me acostumo não...”