Futuro (soneto)


É o destino do acaso
Construído em mutação.
A vida, encaminhando,
É desenho em construção...

É uma síntese do abstrato
Acontecimento humano,
Tracejo que vai errando
Num caminho quase exato.

Escrito no horizonte,
O eterno, por um instante,
é o agora já passado.

É o tudo que nos resta,
É o mundo que se apressa
Esperando ser talhado.



Transporte Público de qualidade, embarque na ideia!


Os engarrafamentos e a poluição permeiam as cidades de médio/grande porte em nosso país. Estimulado por uma ausência de política pública consistente, os transportes coletivos apenas servem de alternativa para os que estão impossibilitados de seguir por outro meio. Assim sendo, carros e motos superlotam as vias, causando poluição e atrasando a vida de todos, com problemas de saúde que afetam dos pulmões até o psicológico.

Em Campina Grande, a nossa querida Rainha da Borborema, o investimento no transporte integrado surtiu alguns efeitos positivos, no entanto, com o montante investido daria para tornar o transporte em massa bem mais eficiente. Aqui só existe um ponto de integração, ou seja, os passageiros devem se dirigir a um lugar da cidade – largo do Açude Novo -, se quiserem economizar e prezar pela segurança.

Onde está o equívoco e a má aplicação dos recursos públicos em nossa cidade? O grande problema foi no valor e no modelo da integração. A obra custou absurdos 6 milhões de reais e, ao contrário de outros modelos bem mais eficientes, centralizou o local da integração. Experiência bem mais sensata, e prática, foi aplicada aqui bem perto, em João Pessoa, onde a integração é feita através de um cartão que possibilita ao usuário pegar o coletivo em qualquer ponto de ônibus da cidade, poupando tempo e dinheiro, do povo e do erário público, já que um sistema assim não exige a exagerada quantidade em dinheiro vazada do patrimônio de todos.


É preciso repensar a forma de conduzir nossa política de transporte em massa. O Passe Livre, que busca dar gratuidade nos transportes coletivos, aos estudantes da rede pública de ensino, é uma ideia a ser discutida e posta em prática, pois ,além de tudo, possui viés sócio-educacional.

De todo modo, nem só de ônibus se resume o nosso transporte público.  Mototáxis, trens urbanos e a segurança da população se entrelaçam no sentido de proporcionar um sistema público de transporte realmente de qualidade.

Busquemos em lugares que lograram êxito, em seus transportes de massa, o rumo para produzir melhores resultados aqui. Em Toronto, no Canadá, a forma de pagamento, as placas de informações e a pontualidade são fortes estimulantes ao uso desse meio de locomoção.

E não vejo alto custo nisso, apenas é preciso otimizar o gasto, buscando custo-benefício real, ao invés de beleza arquitetônica. Uma central de informações seria de grande valia, monitorando, vinte e quatro horas do dia, as rotas dos transportes urbanos e transmitindo em painéis tais informações. Para isso basta boa vontade do agente público e uma mobilização da sociedade, no sentido de tomar partido nas decisões que lhe afetam o tempo inteiro.

É hora de pegar carona no bonde dos bons exemplos, refletindo e ponderando a forma de melhorar a nossa realidade. Transporte Público de qualidade, embarque nesse debate!

 
Saiba mais sobre o transporte público em Toronto, no Canadá:

 

SONETO DA EXISTÊNCIA


Em tudo, na existência,
É preciso ter cautela.
É nossa vida tão bela,
e feita pra paciência...

É provável que a ciência,
de tanto só estudar,
Se esqueça de “passear”
E conhecer a essência.

Tenho a certeza no peito,
Que pra manter o respeito
É preciso consciência,

Caráter e humildade,
Sorrir com sinceridade,
Relevando a aparência.

(IN)SEGURANÇA PÚBLICA

Segurança Pública é sem dúvidas um dos maiores gargalos do poder estatal na atualidade. O medo habita em cada residência e nos torna, cada dia mais, uma sociedade em eterno estado de alerta. PEC’s, PCCR’s e outras bandeiras de lutas são apontadas como soluções imediatas e de grande impacto, mas será que isso basta? Será que a insegurança se resume a insatisfação salarial?

A PEC 300, maior bandeira de luta dos policiais, certamente geraria maior estímulo e contribuiria muito para diminuir a corrupção e combater a criminalidade. No entanto, equipamentos e um serviço de inteligência mais eficaz, tornariam mais fáceis a vida da polícia e, na proporção inversa, complicaria a dos bandidos.

Importante lembrar também do efetivo que dispomos, pois não parece suficiente para, efetivamente, garantir um policiamento ostensivo e suprir a demanda crescente, tanto nos centros urbanos, como no meio rural. Viaturas e armamentos novos só são úteis quando tem alguém para manusear.


O serviço de inteligência, tão necessário, também deve passar pela integração com as comunidades. Pois não existe maior interessado numa sociedade mais segura do que as vítimas da insegurança. Colocar postos policiais nos bairros e aproximá-los dos moradores, nem que seja por telefone ou pela internet, proporciona ao Estado a capacidade de tornar mais ágil o combate ao crime.

No Ceará, existe a exitosa experiência do “Ronda Quarteirão”, onde as policias criam proximidade com as comunidades e agem numa parceria que tem diminuído os índices de violência naquele Estado.

Outro ponto, que acho interessante frisar, é a urgência de inverter o pânico gerado pelos constantes assaltos. Por exemplo, a polícia em áreas conhecidas como críticas poderia armar “arapucas” para atrair os bandidos contumazes. Mais ou menos assim: Coloquemos uma pessoa, com um celular de última geração, para andar por uma região conhecida pelos assaltos e aguardemos o “ataque”. Tomando essa medida algumas vezes na região, o pânico provavelmente inverteria o seu lado, e os assaltantes pensariam duas vezes antes de atacar um cidadão, suspeitando ser uma emboscada.

Claro que a sugestão dada anteriormente serve apenas para crimes mais simples, os mais complexos exigem táticas e operações avançadas, que passa pela estruturação do aparato policial.

A (in)segurança pública, além desse lado mais repressivo, deve ser pensada, principalmente, como parte de um todo, onde não se pode olvidar de mais investimentos na educação e na distribuição de renda.

Nos próximos artigos, exemplificaremos melhor o quanto todos os fatores estão interligados: segurança, saúde, e principalmente, distribuição de renda e investimentos sólidos na educação. Destacando que devem se envolver nesse problema de todos a União, os Estados e os Municípios.

A vida em sociedade é reflexo da complexidade do ser humano e o Estado deve buscar entender e suprir o que gera as consequências prejudiciais e benéficas, para a segurança de dias melhores.

Cine São José


Um corpo em busca da alma; é assim que podemos definir o prédio do antigo Cine São José. Patrimônio de Campina que tem sido esquecido durante décadas, numa cidade universitária que necessita de mais espaço para abrigar sua cultura.

Sem utilização nenhuma – só servindo de abrigo aos marginais – o antigo cine, localizado em espaço privilegiado no centro da cidade, aguarda apenas a iniciativa dos que, se não constroem, deveriam zelar pelo que ainda existe.

Uma bandeira de luta, sem dúvida, honrada e viável, que ganha alma ao ser empunhada por estudantes da nossa querida UEPB. É o grito que ecoa dos que produzem conhecimento e cultura, na busca de um espaço - como uma alma penada - para se solidificar.

A geração responsável pelo futuro quer mais chão para iniciar a sua caminhada, e o que falta apenas é vontade do poder público em atender e entender o seu valor.

Fica o registro de minhas palavras, que não cabem no silêncio de um espaço abandonado: é necessário plantar hoje o amanhã, e um espaço que já foi berço de grandes espetáculos não pode ser gravado no vazio.

A reabertura do Cine São José é Campina “fazendo o filme” da sua história revelada.


MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A LUTA PELA CULTURA:

http://comcuca.blogspot.com/2010/05/em-luta-pelo-cine-sao-jose.html

Primeiros versos decassílabos

Alguns versos que escrevi juntamente com Alfrânio(velho Alfra), meu professor. Valeu, Alfra!
O mote está em negrito e é de autoria dos Nonatos.

A = Alfrânio
AN = Asfora Neto


A -Você pode investir noutros amores.
AN - Insegura, enganada e sem sucesso
A - e talvez nem espere o meu regresso,
AN - abalada por meros dissabores.
A - Ignore, portanto, as minhas dores,
A - a maneira que tenho de sofrer.
AN - Não adianta tentar, pois sem você,
A - nada pode conter o meu penar.
VOCÊ PODE PEDIR PRA EU ME AFASTAR,
SÓ NÃO PODE OBRIGAR-ME A LHE ESQUECER.


AN - Nosso fim foi um beco sem saída,
A - me perdi quando tudo terminou.
AN - Você jura que não, mas aprovou,
A - o momento da nossa decaída.
AN - Hoje mesmo te vejo envaidecida,
A - sem lamento e sem choro no perder.
AN - Foi andando nas ruas, sem você,
A - que eu sozinho aprendi a caminhar.
VOCÊ PODE PEDIR PRA EU ME AFASTAR,
SÓ NÃO PODE OBRIGAR-ME A LHE ESQUECER.


A - Você pode entender que estou sofrendo,
AN - sufocando o meu pobre coração,
A - mas você sabe bem qual a razão,
AN - do tormento que hoje estou vivendo.
A - Mas a gente na dor vai aprendendo,
AN - que não pode viver só por viver!
A - Muito embora não pare de sofrer,
AN - refletir, de chorar e lamentar.
VOCÊ PODE PEDIR PRA EU ME AFASTAR,
SÓ NÃO PODE OBRIGAR-ME A LHE ESQUECER.


AN - Relembrando os momentos de um dia,
A - com carinho eu recordo os nosso beijos
AN - no quartinho ou momentos de festejos,
A - que soubemos curtir com alegria.
AN - Hoje lembro, também sinto agonia
A - em ver isto no tempo se perder.
AN - Sei, faz falta pra mim e pra você,
A - não há nada pra se comemorar.
VOCÊ PODE PEDIR PRA EU ME AFASTAR,
SÓ NÃO PODE OBRIGAR-ME A LHE ESQUECER.



Sim, Alfra tem um blog: http://alfrapoemas.blogspot.com/
Acessem, vale a pena!

O leite e o livro



Brasília (DF), 11 de abril de 1986.


Deputado Flávio Marcílio (PDS/CE) - Presidente da Câmara Federal - com a palavra o deputado Raymundo Asfora - PMDB/PB:

"... E pensar era transgredir. E era o pescoço do oprimido contra a forca do opressor. E era o mando que se degenerava em desmando. E por aí foi o Brasileiro Golpe Militar que se batizou de Revolução de 31 de Março. Revolução, vírgula! De fato, uma Ditadura que se escreve como todas as demais..." Pegava pesado o orador.

" - Nobre deputado Asfora, vou oferecer, a Vossa Excelência, algo útil: um copo de leite".

 Em aparte, Aretuzo Lavajaro (PDS/ES - e filhote do Regime Autoritário acima) ironizou o parlamentar paraibano que abusava do álcool.

" - Em retribuição, ilustre deputado Lavajaro, brindarei Vossa Excelência com um livro".

No mesmo tom, o aparteado zombou do incontrolável horror do aparteante à biblioteca. 

Extraído do site: http://www.gentedeopiniao.com.br/ler_noticias.php?codigo=38740

Blog do Leo

Leonardo Pereira Rocha, futuro pastor e amigo da época do Colégio Alfredo Dantas, aderiu a Era Blog.
Para quem admira uma maneira diferente de enxergar as coisas, recomendo a leitura.

http://wwwleonardopr.blogspot.com/

Meia entrada

Num país onde a justiça tem conquistado respeito pela maior celeridade e isenção, é absurda a forma desleixada e desrespeitosa com que alguns empresários tratam o direito a meia entrada dos estudantes nos eventos promovidos, em especial na nossa Rainha da Borborema, sem que nenhuma medida corretiva seja adotada.

Essa prática já vem sendo usada há tanto tempo que passa despercebida por muitos. A própria UNE, a UBES e outras entidades representantes dos estudantes ficam caladas. Tomei conhecimento a mais de dois anos que existiam processos movidos pelos estudantes contra esse tipo de abuso, porém até hoje permaneço sem escutar o eco desse grito.

Será que a justiça por ser cega não compreende o que freqüentemente colocam no ingresso (“Estudante: R$XX,xx”)? Sendo o mesmo valor cobrado a todos de forma idêntica, estudante ou não. Tiremos essa venda dos olhos da justiça para que ela enxergue o que estão fazendo!

Por quanto tempo a sociedade e os órgãos de fiscalização responsáveis irão manter-se de braços cruzados? O rei está nu!

O preço de um ideal e a hipocrisia


É natural no contagiante calor da juventude aflorar a defesa de “ideais” de liberdade, justiça e solidariedade. Mas com o passar do tempo a maioria das pessoas se vêem amordaçadas por causas cada vez mais individuais e seletistas.

O dinheiro, num mundo que focaliza excepcionalmente os shoppings centers e suas ofertas, torna-se o objetivo de vida de muita gente. As causas sociais são defendidas de maneira a ostentar apenas o status e afagar (ou enganar?) a consciência que grita no vazio de seu próprio espaço.

Para “vender a alma” só basta o lance e muitos são arremessados até a vala onde multidões caminham para um abismo lamacento, com a intocável consciência de tarefa cumprida que só a ignorância traz. Determinado grau de satisfação vem acompanhado de altas doses de hipocrisia, tão encantadoras e convincentes que alguns chegam a se comover de sua boa conduta perante a “sociedade” numa auto-reflexão.

São raras as pessoas que no meio do caminho não param de escutar o clamor humanitário que esperneia diante de tanta injustiça. A sede de igualdade dos que ainda possuem alguma água e sentem a necessidade de distribuí-la para quem não tem, está cada vez mais escassa.

Passeio Socrático (Frei Beto)

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.

"Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais.

Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira.

Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós”.

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social.

Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.

Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um vinho guardado na adega, uma jóia?
Assim como um objeto se associa ao seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife.

Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em Cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.
Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.

"Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."

E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo.
"Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados.
Então explico:
Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo.
Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas.

E, assediado por vendedores como vocês, respondia:
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

Novo modelo

Os leitores mais assíduos do AsforaBlog já devem ter notado que nos ultimos tempos tenho publicado com grande freqüência artigos de outras pessoas, com isso pretendo compartilhar e difundir cada vez mais pensamentos que, na visão do autor do blog, são interessantes.

Meus artigos de opinião não deixarão de serem escritos, apenas incremento ao Blog um modelo cada vez mais dinâmico e participativo.

Castelo Branco e Mendes Morais

Em destemido discurso na Câmara, nos tempos de chumbo de 1964, o deputado paraibano Raymundo Asfora chamou o marechal Castelo Branco de “corcunda do nosso drama”. O deputado governista Mendes de Morais, resolveu insultá-lo, no microfone de apartes. Asfora devolveu em versos:- Por uma fatalidade/Dessas que o fado compôs/Merda se escreve com um M/E Mendes Morais com dois!

Borborema, tropeiros e burramas

Esta é uma terra de tropeiros, burramas e bem-te-vis. Tem açudes, muitas ladeiras, universidades, ciência, cultura e arte (em baixa). Tem saberes, mas é ruim de memória.

Uma cena marcante aconteceria em plena Rua 07 de Setembro, em Campina Grande, no dia 08 de dezembro de 1975. Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, no palco, em alto e bom som pedia desculpas publicamente a Raymundo Asfora por “não ter gravado a letra completa” da canção Tropeiros da Borborema, tal como ele a havia concebido e dado a Rosil Cavalcanti para musicar.

Ao mesmo tempo, o Rei se comprometia a, “futuramente, numa próxima gravação, resolver o problema”. Qual o problema, então, que motivaria o Rei do Baião a se retratar publicamente em Campina Grande? Respondo: ele havia modificado a letra original de “Tropeiros” por achar que a tornaria mais compreensível para a população.

“Estala, relho malvado / Recordar hoje é meu tema (meu lema) / Quero é rever os antigos / Tropeiros da Borborema…” com estes versos Luiz Gonzaga abria aquela que viria a se tornar o segundo hino de Campina Grande. Na verdade, originalmente, Asfora escreveu: “Estala, relho malvado / embora a burrama gema […]” e mais adiante “[…] em busca da terra [‘beleza da terra’, na versão gonzagueana] que tanto se expande / e se hoje se chama de Campina Grande / foi grande por eles que foram os primeiros / oh, tropas de burros / oh, velhos tropeiros”.

Em dezembro de 1988, em sua última Missa do Vaqueiro, em Serrita-Exu (PE), em participação especial com o Quinteto Violado, Luiz Gonzaga pede um mi menor ao seu sanfoneiro auxiliar e diz: “Eu vou cantar agora a música mais bonita que já cantei em toda minha vida […]” e inicia, com a voz já cansada, os versos memoráveis, desta vez, conforme o poema original de Raymundo Asfora. É a única gravação do Rei do Baião cantando “Tropeiros” com a letra original.

Em tempos de homenagens a Campina Grande, Lei Municipal confirmando a música como uma espécie de segundo hino, votação popular escolhendo a canção como aquela que melhor representa a cidade, nada melhor, segundo meu juízo, que fazer jus à obra original de um dos mais nobres defensores desta terra, o poeta Raymundo Yasbek Asfora. Seria uma forma de mostrar respeito pela memória daqueles que declararam, poeticamente, seu amor por Campina e fizeram da sua vida um ato de amor de fato. Ao mesmo tempo, seria uma declaração de compromisso com a verdade histórica.

É bom lembrar que a música foi registrada apenas em nome de Rosil Cavalcanti [editada pela BMG], quando todos sabem e até propagam que a mesma é resultado de parceria com Raymundo Asfora. Isso também está registrado na mesma gravação de Luiz Gonzaga, em praça pública, na comemoração de um dos aniversários da Rádio Borborema.

Em boa hora as rádios e TVs, poderiam tomar uma atitude crítica e utilizar a versão correta da música, uma vez que ela existe e é conhecida. Por outro lado, o poder público campinense [por intermédio de sua Procuradoria Geral ou outro mecanismo] deveria providenciar documentação e efetivar o registro junto à editora, para que a história não seja traiçoeira e negue ao poeta Raymundo Asfora o direito moral, de ter o seu nome oficialmente reconhecido e registrado como um dos autores de uma das mais belas canções de toda história da humanidade.

Nem Asfora nem seus herdeiros ganhariam nada, materialmente, com tal procedimento. Os herdeiros não querem auferir lucros com a canção. Mas, sem dúvidas, seria um grande feito em reconhecimento a um dos mais destacados brasileiros que lutaram por esta terra de tropeiros e burramas (que ainda teimam em circular em meio aos carrões importados). Seria também um grande ato em respeito à sua memória e em respeito à inteligência dos milhares de mortais, modernos tropeiros, que teimam em fazer de Campina Grande seu lugar de pouso, descanso e mesmo a “sua” terra. Viva a cultura respeitada!

CHE

Há personagens com uma tal estatura histórica que, independente dos adjetivos e de todos os advérbios, ainda assim não conseguimos retratá-los em nada que possamos dizer ou escrever. O que falar de Marx, que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel?

Hegel dizia que existem personagens cuja biografia não ultrapassa o plano da vida privada, enquanto outros são os personagens cósmicos, estes cujas biografias coincidem com o olho do furacão da história.

O Che é um destes personagens cósmicos. Basta dizer que, independente de qualquer campanha publicitária, sua imagem transformou-se na mais vista do século XX e assim continua neste novo século. Nenhum esportista, artista ou músico, mesmo com bilionárias promoções pelo mundo globalizado afora, se mantém num lugar parecido. O Che veio para ficar.

Novas gerações, nascidas depois da morte do Che, continuam identificando-se com sua imagem, com seu sentimento de rebeldia, com sua coragem, com sua luta implacável contra toda injustiça.

Não vou gastar palavras inúteis para falar do Che. Basta reproduzir algumas das suas frases, que selecionei para o livro “Sem perder a ternura”.

“A única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência...”

“Nós, que, pelo império das circunstâncias, dirigimos a revolução, não somos donos da verdade, menos ainda de toda a sapiência do mundo. Temos que aprender todos os dias. O dia que deixarmos de aprender, que acreditarmos saber tudo, ou que tivermos perdido nossa capacidade de contato ou de intercâmbio com o povo e com a juventude, será o dia em que teremos deixado de ser revolucionários e, então, o melhor que vocês poderiam fazer seria jogar-nos fora...”

“Deixa-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor.”“Nosso sacrifício é consciente. É a cota que temos de pagar pela liberdade que construímos.”

“Muitos dirão que sou aventureiro, e sou mesmo, só que de um tipo diferente, destes que entregam a própria pele para demonstrar suas verdades.”

“Sobretudo, sejam capazes de sentir, no mais profundo de vocês, qualquer injustiça contra qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo.” (Carta de despedida aos filhos)“É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais.”

“Que importam os perigos ou os sacrifícios de um homem ou de um povo, quando está em jogo o destino da humanidade.”

“É um dos momentos em que é preciso tomar grandes decisões: este tipo de luta nos dá a oportunidade de nos convertermos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também nos permite graduar como homens.”

“Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais completos; somos mais completos porque somos mais livres.”

Emir Sader

"Férias"

Não sei como explicar de modo satisfatório, mas o fato é que esse tempo em que passei sem escrever serviu como umas férias para mim... ou para os leitores!?! Vocês decidem!

De qualquer forma, dentro de uma semana voltarei a postar normalmente.

Navegar é Preciso



Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.


Fernando Pessoa